domingo, 27 de janeiro de 2013

'Guarda Civil está sem identidade', diz secretário da Segurança Urbana


ELVIS PEREIRA DE SÃO PAULO – Encaminhado por Cybulski

A primeira crise enfrentada pela nova gestão municipal --o embate entre a GCM e skatistas na praça Roosevelt recaiu na Secretaria de Segurança Urbana, comandada pelo promotor Roberto Porto. Do caso, ele concluiu: a GCM está despreparada e sem identidade. Precisa, diz, de guardas, uniformes e bicicletas e deve estar mais próxima do cidadão. Assim, a GCM poderá retomar a atuação em parques e na rua 25 de Março --hoje a cargo de policiais militares da Operação Delegada, um convênio entre prefeitura e Estado para que PMs (Polícia Militar) atuem no horário de folga. Após 20 anos de trabalho no Ministério Público Estadual, ele foi indicado a Fernando Haddad pelo vice-presidente da República, Michel Temer.

O promotor Roberto Porto, 44, na secretaria de Seguranca Urbana,
na rua Augusta (região central)

sãopaulo - O senhor estava havia poucos dias no cargo quando houve a agressão de um skatista por um integrante da GCM (Guarda Civil Metropolitana) na praça Roosevelt. Como reagiu?

Roberto Porto - É obvio que, no momento de crise, você tenta tirar conclusões positivas e negativas. A negativa é que a GCM precisa de um preparo maior. Mudamos o coordenador do Centro de Formação da Guarda. Saiu um coronel, colocamos lá um professor. A Guarda está desmotivada, um pouco sem identidade.

A GCM se tornou uma espécie de polícia da prefeitura?

Ela adotou um distanciamento [do cidadão], o que é natural que as polícias tenham. Mas a Guarda tem de estar muito próxima do cidadão. O papel dela é orientar, mediar conflitos.

O guarda acha que é policial?

Não diria isso. Ele está um pouco perdido em relação ao papel da GCM. Talvez não enxergue que ela ocupa um papel importante para a população.

Quais as principais funções dele?

O guarda tem que estar próximo da população, mediar conflitos, tomar conta do espaço do público. Esse é o papel. Para isso, precisamos mudar drasticamente a ideologia da Guarda, criar uma nova identidade. Isso é o mais difícil.

Como será feita essa mudança?

Passa pela mudança do Comando-Geral, do Centro de Formação, por cursos de reciclagem. Guarda que se envolve numa ocorrência inadequada, por exemplo, não passa hoje por uma reciclagem. Mas ele vai passar.

É o caso do guarda que se envolveu na confusão na Roosevelt?

Esse caso extrapola os limites. Esse guarda tem um histórico de violência que talvez o torne incompatível para exercer as funções. Não vamos tolerar violência inadequada e corrupção.

Quantos guardas a GCM ganhará?

Hoje, temos aproximadamente 6.300. A intenção é fazer, ainda neste ano, concurso para 2.000. O prefeito anunciou que pretende aumentar esse efetivo ao longo desses quatro anos. Fora isso, [tem de] ampliar a utilização de bicicletas, buscar recursos para viaturas.

A GCM está sucateada?

Há uma deficiência muito grande. Conseguimos melhorar a situação nesse aspecto em relação à Defesa Civil. Agora, a intenção é reforçar a Guarda: viatura, uniforme. Aquele episódio [da Roosevelt] estava contrariando uma norma imposta no dia anterior: guarda tem de estar uniformizado. Mas para isso a secretaria precisa fornecer uniforme.

Qual será a atuação da Guarda em relação aos moradores de rua?

Há um contato com a Secretaria de Assistência Social e com a das Subprefeituras para criar um protocolo de abordagem. A Guarda vai sempre obedecer a um protocolo e preferencialmente sempre contando com o apoio de uma assistente social. No ano passado, tivemos mais de 80 mil abordagens. Mas há uma série de inquéritos civis no Ministério Público que cuidam da inadequação da Guarda nessas abordagens.

Serão mantidas operações em shoppings populares?

A GCM voltou na última gestão muita atenção para a questão dos produtos contrabandeados. Foi importante, mas a nossa prioridade é atuar em espaços públicos. Tivemos reuniões com a Secretaria de Estado da Segurança Pública para que ela trabalhe nos demais locais que não dizem respeito diretamente às atribuições da guarda.

PMs seguirão fiscalizando camelôs ou os guardas retomarão a função?

Na medida em que o concurso for efetivado, a Guarda poderá voltar a assumir. Hoje, ela não tem condições. Mas não abriremos mão disso.

Guarda e polícia não atuarão juntos?

Esse entrosamento hoje é deficitário. Mas é obvio que a função que vem sendo feita pela Operação Delegada é da Guarda. A Guarda não abriu mão disso e pretende retomar a partir dos nossos concursos. A polícia poderá ser aproveitada em outras funções

Na eleição, a segurança aparecia como o segundo principal problema da cidade. Acha justa essa avaliação?

Justíssima. Todo paulistano hoje se preocupa com a segurança. É um grave problema. O importante é a população saber que a Segurança Urbana está atuando. Temos muito o que melhorar. Conseguimos zerar o número de furtos e roubos de veículos no parque Ibirapuera. Mas furto de bicicleta é outro problema.

E o cuidado com o espaço público?

Uma das preocupações é a iluminação, que está ligada à segurança. Posso assegurar que isso está sendo tratado.

O senhor atuou na investigação da Máfia dos Fiscais. Acabou a corrupção entre servidores da prefeitura?

A gente nunca pode falar que a corrupção acabou. Mas acho que nada é comparável ao grau que tínhamos em 1998. O índice de corrupção está longe de ser o ideal, mas acho que melhorou muito no aspecto das subprefeituras.

Como tem sido a transição para o senhor, que investigava o crime organizado e agora tem de lidar com problemas como má iluminação nas ruas?

Lidei durante muito tempo com o PCC (Primeiro Comando da Capital). Aqui, não lidamos com crime organizado. Do Ministério Público para o Executivo há uma diferença bem grande. Lá, a tensão com uma investigação era cíclica. Aqui ela é constante.

Fonte: Notícias UOL

Publicada no Blog O Cão de Guarda Notícias

Nenhum comentário: